Os óbitos da obra da Ponte Nova sobre o Zêzere
Quadro com uma
cena imaginada das obras na “Ponte Nova” por volta de 1770
Imagem gerada pela plataforma DeeVid AI
Numa
publicação anterior, com base em registos de óbitos da nossa freguesia de
Caria, referindo pedreiros vindos de terras distantes do Minho, pudemos por
associação de datas presumir que trabalharam na reconstrução da igreja, a qual
ocorreu no final do século XVII e início do século XVIII.
Mais
adiante no tempo surgiram-nos outros registos que já de forma direta
mencionavam outra obra relevante nesta nossa região: a reconstrução da “Ponte
romana” ou “Ponte nova”, que atravessa o Zêzere entre a Quinta de Lamaçais e a
Borralheira.
O
primeiro desses registos data de 12/6/1771. Refere o óbito de uma menina, Ana, de apenas 10 dias, filha de João
Gonçalves Palmeirão, natural de São João de Revoreda, Vila Nova de Cerveira,
Valença, e de Teresa da Silva, natural da Guarda. Refere que o pai era mestre
pedreiro da obra da ponte de Lamaçais para o Teixoso.
Este simples
registo para lá de mais uma vez mostrar um “imigrante” do Minho, esclarece que
formou por cá família e estaria a viver em Caria. A esposa era da Guarda, pelo
que se presume que tenha por lá casado, possivelmente vindo para alguma obra
nessa cidade.
Poucos meses
depois surge um outro registo, com data de 1/10/1771. Este refere Manuel
Pinheiro, solteiro, de idade de vinte e cinco anos… absolvido pelo pulso (Nota 1)
tão somente sem mais sacramentos, pelo Reverendo Padre Pregador Frei Manuel do
Bom Sucesso do Convento da Esperança de Belmonte… que se diz ser natural da
cidade da Guarda, o qual se diz ser de uma Jacinta que por nome não perca (Nota
2) natural da dita cidade da Guarda; o qual faleceu na Quinta de Lamaçais...
aonde se achava jornaleiro na Obra da Ponte Nova...
Este registo
dá-nos mais algumas informações curiosas. Era jornaleiro e faleceu na Quinta de
Lamaçais. Muito provavelmente esta quinta seria o local onde boa parte dos
trabalhadores pernoitavam e passavam os tempos de descanso. Quem lhe prestou os
sacramentos foi um Frade do Convento de Nossa Senhora da Esperança, que
prestava decerto nessa altura serviços religiosos nessa quinta.
Nota 1:
“absolvido pelo pulso” é uma expressão usada quando o moribundo não se consegue
exprimir devido à sua fraqueza ou doença, mas o clérigo considera que o seu
comportamento manifesta verdadeiro arrependimento dos seus pecados. Pega-lhe no
pulso para o reconfortar.
Nota 2: pedido de
desculpas por esquecimento ou desconhecimento do nome completo
Poucos dias
depois, a 5/10/1771 falece Maria de 6 anos, outra filha de João Gonçalves
Palmeirão. Neste registo acrescenta-se que os pais são assistentes na obra da
Ponte de Lamaçais. Esta última referência significa que havia uma comunidade
que estava assistida do ponto de vista religioso, permitindo que participassem
nos ritos comuns da Igreja. Decerto essa assistência religiosa como a
realização de missas era feita na Quinta de Lamaçais e Frei Manuel do Bom
Sucesso seria um dos que asseguravam esses serviços.
O facto de termos
mais um falecimento de uma criança da mesma família mostra que grassava uma
epidemia, situação infelizmente frequente. Note-se que não encontramos registo
de óbito de nenhum dos elementos deste casal. Provavelmente continuaram a vida
por outras terras, tirando partido das competências do João.
Mas conseguimos
encontrar mais alguma informação interessante.
Em Caria só terão
tido a Ana, falecida com dez dias. Mas pelos vistos criaram por cá raízes.
Na verdade
tiveram um outro filho de seu nome José Gonçalves Palmeirão, que era natural da
Guarda. Por cá casou (4/4/1780) e teve dois filhos, António (1781) e Maria
(1786). A esposa, Brízida Maria, era natural do Ferro.
Sobre o Manuel
Pinheiro, natural da Guarda, não temos informações que permitam saber mais.
Duas notas finais:
Informou José
Vargas que esta obra impressionou muito as gentes que por esta ponte passavam.
De tal forma que surgiu uma lenda, a qual dizia que tinha sido feita numa única
noite pelos “galhardos”, uma espécie de diabos. Esta lenda é referida na
publicação “Expedição Científica à Serra da Estrela” de 1881. Se tiver
curiosidade pode consultá-la aqui.
A referência vem na página 26. Segundo este relato, os galhardos lidavam com
toda a azáfama para acabar a obra, quando cantou um galo. “Já cantou um galo,
dizia um deles, vamo-nos” Foi o galo pardo, observou outro. “Não, foi o galo
preto romano, replicou o primero”.
Será também de
interesse salientar que até há relativamente poucos anos, cerca de um século, a
estrutura social agrária era assente em comunidades centradas em “Quintas” e
assim denominadas, nomeadamente nos registos paroquiais. Dessa forma por
exemplo eram referidas as localidades da Quinta de Malpique, Quinta do Monte do
Bispo, Quinta do Carvalhal, Quinta da Castanheira. A Quinta de Lamaçais,
porventura por manter em boa parte a sua unidade agrária, manteve o nome.
Em jeito de
conclusão
Mais uma vez
encontrámos registos que mostram que as principais obras que se realizavam
exigiam a vinda de trabalhadores de outras terras. O Minho continuou a ser uma
fonte de mestres pedreiros. Muito provavelmente outras pessoas de Caria
trabalharam nas obras desta ponte, mas por alguma razão tal não era referido,
talvez por serem da freguesia e não ser necessário acrescentar em que tarefa
estavam envolvidos.
Provavelmente a
denominação “Ponte nova” resultou destas obras por volta de 1770, ou seja, é
uma ponte nova com mais de 250 anos…
Também desta vez
estas “migrações” para lá das obras deixaram pessoas, pessoas que decerto
trouxeram consigo outros hábitos e ajudaram a “esculpir” a estrutura social e a
identidade da nossa terra.
Agradecimentos
Agradeço ao meu
filho João a edição da imagem que permitiu corrigir algumas falhas que a
plataforma de IA insistia em repetir…
Agradeço ao José Vargas mais uma partilha do seu conhecimento, que deu mais "cor" a esta publicação.

Mais uma excelente pesquisa.
ResponderEliminarParabéns