Os mestres pedreiros que vieram reedificar a igreja matriz
Como se pode
observar num painel gravado na pedra, da parede exterior do lado nascente da
capela mor da Igreja Matriz de Caria, em 1701 terá terminado a obra de
renovação que corresponderá à atual estrutura da capela mor, incluindo os
trabalhos interiores de talha doirada e caixotões do altar e teto. Refere o
painel “O Padre Pedro Álvares Cabral mandou reedificar esta capela Ano 1701
Como Prior.
Figura 2 – Painel
assinalando a conclusão da capela-mor
LMCPM – Foto de 1995
Percebe-se que é
uma obra de muito boa qualidade, em pedra de granito de grão fino, bem
aparelhada por mestres pedreiros. Terá demorado decerto vários anos a completar.
Por cima do muro do adro, do lado da capela de Santo António, podemos ver a
data de 1719, que indicia que os trabalhos continuaram pelo menos até esta
data. No canto inferior direito da imagem seguinte podemos ver essa data.
Para uma obra
desta envergadura seria decerto necessário chamar pedreiros de outros lugares
para participar. Com o levantamento já feito dos registos paroquiais, podemos
fazer alguma luz sobre esta hipótese.
Note-se que os
registos paroquiais foram escritos com variados graus de detalhe e forma,
dependendo do clérigo e da época. A referência às profissões dos sujeitos
ocorre apenas ocasionalmente e por vezes de forma ambígua, não se percebendo
por exemplo se está a ser escrita a profissão ou um apelido, ou mesmo uma
alcunha. Por exemplo a 23/2/1699 um registo de óbito refere que faleceu Maria
Esteves, de Caria, casada com Manuel Pires Pedreiro. Mas uns anos mais tarde, a
21/12/1704 um outro registo de óbito refere o falecimento de Maria Xistra de 12
anos “neta de Manuel Pires o pedreiro por alcunha deste lugar”…
As mais antigas
referências a pedreiros de outras localidades que podem estar relacionados com
esta obra dizem respeito a óbitos e é por esses que vou começar.
Figura 4 - A reconstrução da nossa igreja matriz no final do século XVII e
início do século XVIII
Imagem gerada pela plataforma DeeVid AI
Nesta época o
primeiro registo que encontrei data de 17/9/1700. Refere o óbito de Francisco,
de 14 anos, natural de [Louves] (será Loivo?), Vila Nova de Cerveira, filho de Domingos
Afonso e Domingas Martins. O registo informa que é oficial de pedreiro, sendo
os pais moradores no lugar de onde era natural. Curiosamente esclarece que as
informações registadas estão “conforme disse outro moço pedreiro por nome
Domingos que disse ser irmão do dito defunto e foi enterrado no adro...”. Ou
seja, um outro seu irmão também veio com ele. Aparentemente não vieram os pais.
Foi enterrado no adro, o que era pouco comum e sinaliza uma menor relevância da
pessoa na comunidade. A grande maioria dos falecidos era sepultada dentro da
igreja.
Note-se que era
comum que os nomes não estivessem associados aos apelidos quando se referiam
jovens solteiros.
Note-se também
que não se indica a causa da morte. Nesta época a maior parte das mortes ocorria
cedo e devia-se a doenças. Os cuidados higiénicos eram escassos, as infeções e
epidemias eram frequentes.
Pouco mais de
dois meses depois, falece outro Francisco, a 7/12/1700. Neste caso Francisco
[Gonçalves], sendo referido como oficial de pedreiro, natural de [Santa Maria
de Loivos, Vila Nova de Cerveira], casado com Madalena Lourenço. A Madalena é
referida como moradora na localidade de origem, ou seja, não veio com ele. Também
neste registo se indica que estas informações “disseram seus companheiros
Domingos Afonso e Pedro Lourenço pedreiros que diziam eram da mesma freguesia”.
Neste caso já foi sepultado dentro da igreja matriz. Este Domingos Afonso seria
decerto o irmão do Francisco, do óbito anterior. Constatamos, pois, até este
momento três nomes, Francisco (Domingos), Afonso Domingos e Pedro Lourenço,
vindos da freguesia de Vila Nova de Cerveira.
Alguns meses
depois, a 13/10/1701, falece Manuel Domingues, oficial de pedreiro, de São
Pedro de Gondarém, Vila Nova de Cerveira, casado com Maria Domingues. No
registo consta: [… e de tudo … afirma deram notícias] Francisco Gonçalves e
João Correia também pedreiros e seus companheiros.
Ou seja, temos
mais três nomes, Manuel Domingues, Francisco Gonçalves e João Correia, vindos
da mesma região.
A 26/12/1704
falece Pedro Lourenço, com cerca de 40 anos, oficial de pedreiro, de Santa
Maria de Loivo, Vila Nova de Cerveira, casado com Maria Martins. Segundo o
registo, “representava ter de idade quarenta anos, e era muito magro e mole dos
olhos, que costuma trazer sempre [agravados]”. É referido como “Pobre”. Foi sepultado
na igreja. Já conhecíamos este Pedro Lourenço atrás referido.
Decorrem cerca de
10 anos até encontrarmos mais um óbito de um “imigrante” desta arte.
A 4/9/1714 falece
e é sepultado na igreja João Gonçalves pedreiro, viúvo de Madalena Alves,
natural do Lugar do Carreiro, paróquia da igreja do lugar de [Sopo] termo da
vila de Caminha… “que representava ter de idade cinquenta e cinco anos baixo do
corpo, do cabelo da cabeça e barba preto... por informação de António Gonçalves
solteiro que diz ser filho do defunto, que assinou comigo”.
Passados mais
cerca de 10 anos, temos outro registo de óbito interessante. A 6/12/1724 falece
Eufémia Rodrigues, casada com João Rodrigues pedreiro. E acrescenta que o seu
marido é filho de Manuel Esteves pedreiro e de sua mulher Domingas Rodrigues
naturais do lugar do [Loyo] (Loivo?) termo da vila de Caminha.
Mais uma meia
dúzia de anos passados surge um registo bastante curioso. A 20/12/1730
informa-se que “… se fizeram dois ofícios… pela alma de Manuel Lourenço oficial
de pedreiro morador e assistente que foi neste dito lugar… tinha mudado de
domicílio do lugar de Vilar de Mouros arcebispado de Braga donde era natural, e
casado com Isabel Lourença, e aqui assistiu sempre menos o tempo que
ultimamente esteve em Mafra trabalhando nas Obras Reais donde veio notícia
certa que aí falecera no Hospital...”.
Não temos registo
do óbito da esposa, pelo que se presume que esta não o acompanhou e por aqui
ficou a morar. A sua competência fez com que fosse integrado nas obras do
Convento de Mafra. Os trabalhos da sua construção [1] iniciaram-se em 1717 por
iniciativa do rei D. João V, em virtude de uma promessa que fizera em nome da
descendência que viesse a obter da rainha D. Maria Ana de Áustria. Em 22 de
outubro de 1730 foi realizada a sagração da Basílica. A conclusão da totalidade
do imóvel ocorreu quase uma década mais tarde.
O “nosso” Manuel
Lourenço poderá ainda ter assistido à sagração da basílica!
Figura 5 - A
construção do Convento de Mafra – Roque Gameiro – 1917
Imagem retirada da Wikipedia
Vejamos agora o
que neste período podemos encontrar nos registos de batismo.
A 2/11/1705 é
batizado Domingos, filho natural de Domingos Lourenço, natural de Santa Maria
de [Loios] (Vila Nova de Cerveira) e de Isabel Martins, natural de Caria. O pai
era solteiro, oficial de pedreiro. A mãe era viúva de Manuel Lourenço Canelo,
de Caria. “Filho natural” era a terminologia usada quando não era resultante de
um casamento com a bênção da Santa Madre Igreja. Note-se que, com base no nosso
levantamento sabemos que vieram a casar em 5/1/1706, regularizando a situação
que na época seria incómoda de acordo com os padrões sociais. E tiveram mais
dois filhos…
A 4/9/1721 é batizado José, filho do pedreiro João Rodrigues, natural de [Sopro] (será Sopo?), Caminha, e de Eufémia Rodrigues, natural de Trinta (Guarda). Não encontramos registo deste casamento. Seria natural que ocorresse na terra da noiva. Terão vindo viver para Caria temporariamente. A Eufémia falece a 6/12/1724, deixando viúvo o João e não tiveram mais filhos. O João, contudo, volta a surgir como pai em dois batismos, sendo a esposa Isabel Pires de Caria, nascem o Bernardino (1735) e o Miguel (1737). Também aqui não encontramos o respetivo registo de casamento.
No que respeita a
registos de casamento neste período referindo o noivo ou algum dos pais dos
noivos como pedreiro, natural de uma localidade distante, apenas encontrei a
seguinte situação.
A 5/1/1706 Domingos
Lourenço, natural de Santa Marinha de Louvo (Será S. Maria de Loios?), termo de
Vila Nova de Cerveira, casa com Isabel Martins natural da Quinta de Lamaçais. A
noiva era viúva de Manuel Lourenço de Caria. Tiveram três filhos batizados em
Caria, Domingos (1705), Josefa (1707) e Miguel (1710). Domingos nasceu antes do
casamento.
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Note-se, por
último, que na nossa igreja, precisamente nas pedras da capela mor, podemos ver
algumas marcas de canteiro, que provavelmente correspondiam a ideogramas ou
“assinaturas” das famílias / confrarias ou do mestre que aparelhou cada uma
delas. Há outras possíveis explicações para estas marcas, como Elisabete Robalo
[2] refere no seu artigo “Marcas de Canteiro dos Castelos do Concelho de
Sabugal”, mas será esta a mais provável. Recomendo a sua leitura a quem tenha
curiosidade no tema. A autora faz uma boa contextualização histórica do
aparecimento destas marcas, que se encontram em praticamente todas as
geografias e períodos históricos, desde os caldeus e egípcios, e que no caso
específico português foram particularmente comuns na idade média, sendo que no
século XVIII ainda eram usados, se bem que em menor frequência. Explica também
as suas possíveis utilidades, podendo não ser apenas de identidade. Podiam por
exemplo ser utilitárias, indicando o local de colocação, mas outras possíveis
razões são descritas. O artigo apresenta também marcas de construções nesta
nossa região, não apenas do Castelo do Sabugal. São feitas referências a marcas
dos castelos de Sortelha, Alfaiates, Vilar Maior e Vila do Touro. Note-se,
apenas por curiosidade, pois estamos a falar de épocas de construção muito
afastadas, que a marca que surge na nossa igreja matriz é idêntica a uma das
mostradas referente ao castelo de Sortelha.
Figura 7 - Marcas
de canteiro no castelo de Sortelha, segundo Isabel Robalo [2]
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Em jeito de síntese
Por razões que
desconheço, Caria terá tido bastante desenvolvimento no final do século XVII e ao
longo do século XVIII, sendo disso resultantes edifícios como o solar Quevedo
Pessanha, o “Casão”, a Igreja Matriz e o muro do seu adro, ou a Capela de Santo
António. Haveria nesse período bastante trabalho e foi necessário requisitar
artistas de outras terras. Por alguma razão vieram mestres pedreiros e seus
aprendizes das longínquas terras do Minho. Possivelmente haveria uma rede de
contactos, talvez a nível da Igreja, decorrentes de outras obras do mesmo teor.
Essas “humanas gentes” chegaram, de uma forma geral apenas do sexo masculino,
homens e jovens, e terão tido sortes diferentes. Alguns por cá faleceram longe
da família e sem constituir nova família, a maioria provavelmente pelas muitas
enfermidades em que tal sucedia com frequência. Outros constituíram família e
são antepassados de muitos carienses. Todos, cada um à sua maneira, ajudaram a
construir esta nossa terra.
Agradecimentos
Agradeço à
Adosinda Pereirinha o empenho e o esforço no levantamento dos óbitos dos nossos
livros paroquiais, sem cuja informação esta publicação não seria possível.
Agradeço ao Luís
Ribeiro mais uma vez a sua disponibilidade, neste caso para recolher imagens de
marcas de canteiro visíveis nas paredes exteriores do altar-mor da nossa
igreja.
[1] – Palácio
Nacional / Convento de Mafra
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_Nacional_de_Mafra
[2] – Robalo,
Elisabete - Marcas de Canteiro dos Castelos do Concelho de Sabugal; Revista
Sabucale, 2008
https://www.academia.edu/128392120/Marcas_de_canteiro_dos_castelos_do_Concelho_de_Sabugal?sm=b



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