Caminhantes de passagem - 1
Quadro com uma
cena imaginada tendo como base o primeiro registo desta publicação
Procurou-se situar a imagem na Rua da Cancela se bem que a plataforma de IA
não tenha permitido representar exatamente o que foi pedido
Imagem gerada pela plataforma DeeVid AI
Caria possui terrenos férteis e fontes de boa água potável que permitiram desde tempos remotos ser habitada. Complementarmente foi também desde sempre um local de passagem. Muitos são os caminhos que aqui se cruzam. A calçada romana, as pontes e os pontões, são obras que resultaram dessa necessidade que o ser humano sempre teve de estabelecer contactos entre as diversas comunidades. Espero numa próxima publicação apresentar uma reflexão pessoal sobre esses caminhos, mas nesta vou focar-me nos “caminhantes”… em pessoas que passaram por esta nossa terra, mas que por acasos do destino aqui faleceram, disso ficando registo nos livros de óbitos.
Recordo a notação de que “texto entre parêntesis
retos” […] significa que a sua interpretação levantou dúvidas.
Os registos mais
antigos de “caminhantes” foram escritos pelo prior Fernando Remelhado.
O primeiro data
de 20/7/1621. Refere que nesta data faleceu … abintestado um homem [pobre] de
fora, vindo de caminho de [ceifa] com sua foice e não declarou o nome nem de
onde era e está enterrado fora da igreja defronte da porta principal.
Seria alguém que
(sobre)viveria do seu trabalho braçal. Estava-se em pleno verão, no tempo das
ceifas. Andaria de terra em terra em busca de trabalho. Terá muito
provavelmente falecido por alguma doença. “Abintestado” significa que não
deixou testamento. Foi sepultado no adro, ao contrário da grande maioria dos
residentes que era sepultado dentro da igreja.
A 18/4/1624 o
mesmo prior refere … faleceu da vida presente Miguel Lopes, morador em [São
Jemedões] do concelho de Penalva, casado que foi com Isabel Gonçalves do mesmo
lugar, vinha de caminho de além Tejo, faleceu neste lugar, disse-lhe missa de
presente, não mais, fez testamento, fez a sua mulher por testamenteira. Jaz
fora da igreja.
“Faleceu da vida
presente” é uma expressão muito comum neste tipo de registo, expressando a fé
na ressurreição. Neste caso viria do Alentejo, dirigindo-se provavelmente para
a sua terra. “Missa de presente” significa “Missa de corpo presente”. À
semelhança do anterior viajante, também foi sepultado no adro. As referências a
ter deixado testamento, bem como a notícia do seu falecimento, possivelmente
foram encaminhadas para a sua freguesia.
A 24/2/1626
escreve que… faleceu da vida presente vindo de caminho da Guarda para sua terra
Domingos Simões de Janeiro de Cima deste Bispado. Disse ser casado em o dito
lugar. Não fez testamento. Jaz na igreja matriz deste lugar. Disse a missa de
presente.
Note-se que neste
caso o enterro já é feito na igreja, possivelmente por ser natural do Bispado.
Pouco tempo
depois, a 16/4/1626 escreve… se enterrou um homem pobre, no adro, à porta
principal da igreja que acharam morto neste limite de Caria e disseram [ser] de
Alpedrinha por nome Pero Lopes pobre miserável disse-lhe a missa de presente
grátis.
“Morto neste
limite de Caria”, significa que foi encontrado na periferia, possivelmente num
caminho, mas num espaço que já pertenceria à freguesia. Saliento também o termo
“grátis”, com o mesmo significado atual, mas que pareceria ser uma palavra de
origem mais recente.
A 14/11/1634 encontramos
outro registo, neste caso feito por outro pároco, Pedro Jerónimo, que refere
numa caligrafia por vezes difícil de compreender… faleceu desta vida presente António
Carvalho natural de e morador em o lugar de aldeia do Souto. Foi achado morto
onde chamam a saraiva por Diogo Francisco deste lugar. Não fez testamento e era
homem [que suposto que mendicava tinha bens de seu dei licença para que o
levassem a enterrar em a igreja de aldeia do Souto ficou por fiador da parte
que cabia a esta igreja António Francisco Oracio deste lugar]. Disse-lhe a
missa de presente. E por verdade fiz este assento…
Neste caso temos
uma aparente contradição. Teria bens mas andava a mendigar… mas seria conhecido
e um cariense disponibilizou-se para pagar as custas de levar o corpo para a
sua terra natal.
A 9/8/1648
escreve o pároco Manuel da Guerra do Amaral … faleceu da vida presente … um
homem que dizia se chamava João Manuel e que era de junto a Viseu indo de
caminho para Pena Macor, abintestado e está sepultado no adro desta igreja de
Nossa Senhora de Caria.
Note-se a grafia
de Penamacor em palavras separadas. Curiosa a invocação da igreja a “Nossa
Senhora de Caria”. Note-se que por esta altura surgem referências em registos
de óbito a “Nossa Senhora do Rosário de Caria” (Ex: registo de 14/7/1655).
A 12/10/1688,
escreve o pároco Manuel Lopes que faleceu Manuel Fernandes forasteiro que dizem
ser natural da [Póvoa da Coelheiros Bispado de Lamego], Homem alto, [grosso e
Rujico]. Pobre. Está sepultado no adro.
Em nota lateral acrescenta-se: outros dizem Vila Cova da Coalheiros
O nome atual da
terra será Vila Cova à Coelheira. Neste caso é feita uma breve descrição
física, percebendo-se ser alguém robusto.
A 25/11/1689 o
mesmo pároco escreve que faleceu da vida presente […a] Mendes velha com carta
de guia para Penamacor donde disse ser natural forasteira de … branca altura
marcada. Foi sepultada no adro.
Neste caso temos
uma mulher idosa, se bem que nesta época seria um termo aplicável de forma
diferente da atual. Infelizmente não conseguimos saber a que se aplica o
adjetivo “branca”, pois a palavra está oculta. Uma “carta de guia” autorizava a
circulação de pessoas, em tempos e locais em que podia haver algum tipo de impedimento
ou necessidade de pagamento de taxas. Caria seria provavelmente uma dessas
localidades, tendo em conta que temos a “Rua da Cancela”, um topónimo que
indicia que apenas pessoas autorizadas poderiam passar.
A 19/8/1693 um
outro pároco, Miguel da Fonseca Sequeira, escreve … um homem estrangeiro que
conforme informações que tomei com o juiz ordinário deste povo, Antão Gonçalves
Neto e Vicente Soares estalajadeiro do mesmo lugar, e mais algumas pessoas
dele, e por papéis que se lhe acharam, se chamava Pedro Gomes morador da vila
de Olivença, que teria de idade pouco mais ou menos quarenta e cinco anos, de
mediana estatura, com uma cabeleira não muito comprida com alguns cabelos
brancos e dois dentes dianteiros da parte de cima menos, e magro e moreno ainda
que não muito. Foi sepultado na igreja junto à porta principal... e declaro era
morador da aldeia de S. Jorge termo da vila de Olivença.
Dá-nos uma
descrição bastante interessante quer do falecido, quer de informações
complementares. Ficamos a saber o nome do juiz de Caria. Também nos informa que
haveria pelo menos uma estalagem e quem era o estalajadeiro. Sobre o falecido temos
uma curiosa descrição física e ficamos a saber que era morador em Olivença,
mais especificamente na aldeia de São Jorge, possivelmente a atual São Jorge da
Lor.
E por aqui nos
ficamos nesta publicação, se bem que tenhamos recolhido mais alguns destes
registos que serão referidos em próximas oportunidades.

Interessante pesquisa.
ResponderEliminarParabéns....👏👏