Curiosidades sobre os registos paroquiais de Caria - A parteira Isabel Antunes Caroço

Imagem do livro “Der Rosengarten” (O Jardim das rosas) – 1513 Eucharius Rosslin
Nota: Esta publicação, com adaptações, foi apresentada a 14/12/2024 numa sessão integrada na comemoração dos 100 anos da Vila de Caria.
Foi igualmente publicada na edição do Correio de Caria de 31 de Janeiro de 2025.
Pode recolher aqui um documento pdf com uma apresentação mais detalhada.
A parteira Isabel Antunes Caroço nos registos de batismo de Caria
O sentido e o valor da vida no final do século XVIII, eram claramente marcados pela sempre-presente e envolvente morte. Para lá das óbvias consequências de acidentes, guerras ou agressões, as mortes por doença não eram explicadas por razões materiais como a falta de higiene e sim por forças espirituais, lutas entre deus e o diabo, o destino…
O quadro seguinte, em que cada ponto representa um óbito, em Caria, no período 1774-1776, ilustra bem esta permanente tragédia em que se vivia, em que se pode ver que uma enorme percentagem de óbitos ocorriam na infância.

Ocorrências de óbitos em Caria - 1774 - 1776
Se olharmos para esta mesma realidade agregando os óbitos por faixa etária, podemos produzir por exemplo o seguinte quadro.

Distribuição das idades dos óbitos em Caria no período 1774 - 1776
Podemos por exemplo constatar que no total de 131 óbitos ocorridos nestes três anos, 72 foram de crianças até aos 5 anos, ou seja, cerca de 55%!
Conseguem imaginar como seria viver numa época em que mais de metade das crianças falecia tão cedo?
E claro que os partos não eram apenas uma situação de risco para a criança. Com frequência as mães corriam perigo de vida. Não por acaso, desde os primórdos da humanidade que se invocam deuses protetores para estes momentos. O leitor poderá ler algumas breves referências no Anexo 1 desta publicação.
Apenas para ilustrar esta tremenda situação, mostro um registo de óbito deste período e parte da sua transcrição.

21 de Agosto de 1774 - Falece a Mãe e a criança durante o parto
Aos vinte e um dias do mês de Agosto de mil setecentos e setenta e quatro faleceu da vida presente de idade de vinte e três anos pouco mais ou menos, absolvida pelo [prelado] e com o sacramento da extrema unção tão somente pois faleceu de parto de um menino que deu à luz e foi batizado pela parteira que lhe pôs o nome de José que também logo faleceu e foi sepultado na mesma cova com sua Mãe Maria Gomes a Renda…
Batismos de risco - uma breve contextualização
É importante esclarecer um aspeto curioso dos registos de batismo. Nestas épocas remotas, como constatámos, o momento do nascimento era um ato de risco. As pessoas nasciam quase sempre em casa, por vezes em lugares e quintas distantes, distantes mesmo de simples vilas como Caria. Com frequência os partos tornavam-se difíceis e quer os nascituros quer as mães corriam risco de vida. Dos casos de nados-mortos não rezam estes registos. Mas caso a criança sobrevivesse, constatando-se que estava em risco de não sobreviver, era e é legítimo que na ausência de um padre, qualquer cristão presente pudesse batizá-la executando os atos básicos de lançar alguma água na cabeça da criança e dizer as palavras “<nome da criança>, eu te batizo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
Essa possibilidade era conhecida de todos, pois nesses tempos de grande fé era aterrador pensar que a criança poderia morrer e não ir para o Céu, caso não fosse executado esse ato salvador.
Por esta razão, sempre que uma criança era batizada nessas condições, tal era depois dito ao padre o qual fazia essa menção no registo de batismo.
Desta forma, temos a perceção, não só de quando essas situações ocorriam, quer a informação de quem executou esse batismo de recurso, que tipicamente é escrito com uma formulação do tipo “foi batizado em casa por necessidade por…”.
O envolvimento de Isabel Antunes Caroço em partos de risco
No levantamento que temos feito não assumimos como obrigatório transcrever as anotações dos párocos, mas no livro de batismos que cobre o período 1774 a 1798 conseguimos observar bastantes, que permitem esta análise apresentada a seguir. São referidas várias parteiras precisamente por terem executado muitos destes batismos de recurso. No caso são referidas seis:
- Maria Antunes Caroço, duas vezes; - Isabel Antunes, uma vez;
- Ângela Fernandes, uma vez; - Ana Fernandes, uma; - Maria Freixa, uma.
Mas outra se destaca. O seu nome, Isabel Antunes Caroça, a qual surge 16 vezes nesse papel, sendo que em 14, como tendo atendido a situações de risco!
Curiosamente o período em que temos anotações do seu nome como parteira é relativamente curto, de 5/3/1777 a 22/3/1782, cerca de 5 anos.
Neste mesmo período, apenas surgem outras 3 referências a parteiras.
Como exercício de mera curiosidade, se considerássemos que em cada parto só estava presente uma parteira e estas anotações seguem a mesma proporção em que intervieram em partos, ela teria estado em cerca de 16/19, ou seja cerca de 84%. Portanto, como entre 5/3/1777 e 22/3/182 ocorreram 247 batismos (pode ter havido mais partos de nado-mortos), na referida proporção teria assistido a cerca de 208!
Isabel Antunes Caroça seria analfabeta, pois é referida algumas vezes como madrinha e não assina os registos. Era natural de Peraboa. Casou com Félix de Almeida Campos, de Caria. Sabemos isso pois constam 4 filhos batizados em Caria, de seus nomes Félix (1777), Isabel (1779), Luís (1781) e João (1783). Decerto não por acaso, os dois primeiros ficaram com os nomes de batismo dos pais. Segundo os registos de Caria, apenas João deixou descendência e portanto netos da Isabel, mas os outros podem ter casado noutras terras.
O casamento não consta em Caria. Ocorreu em Peraboa, terra da Isabel, a 5/7/1775. O marido era viúvo de Isabel Rita de Caria, com quem teve um filho, como consta do nosso levantamento. Depois de casarem terão logo vindo para Caria, onde tiveram os quatro filhos referidos.
Note-se que depois do nascimento do filho mais novo não temos mais nenhuma anotação da Isabel, nem mesmo como parteira. Uma razão pode ser uma mudança na forma como passaram a ser acompanhados estes casos de risco. Conferi cerca de uma dezena de situações posteriores de “batismos em casa por necessidade” e em todas elas se passou a referir que tal foi feito pelo padre...
Também fiz uma pesquisa a óbitos nos anos seguintes e nada encontrei. Podem ter ido morar para outra terra…
Para terminar os resultados desta breve pesquisa partilho uma constatação que considero comovente:
O primeiro filho, Félix (ou Feliz), nasceu a 26 de Fevereiro de 1777. Foi batizado pucos dias depois, a 5 de Março, como era uso na época, para que não corresse maior risco de falecer sem ter essa graça. Ora nesse mesmo dia, Isabel Antunes Caroça é referida numa das catorze intervenções de risco que citei, como parteira de uma criança a quem batizou, precisamente por estar em perigo de vida. Era Ana, filha de Francisca, solteira… E dois dias depois estava a assistir a mais um parto de risco de outra criança, Manuel…
Tempos difíceis que não davam azo a grandes descansos, e exigiam muito empenho e solidariedade.
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Dedico este texto à memória de minha Avó Paterna Maria José.
Faleceu numa aldeia entretanto desaparecida, do interior de Angola, na sequência de problemas do parto em que nasceu o meu Pai.
Maria José da Ressurreição Alexandre (1901 Cernache -1925 Moxico)

O meu Pai com a ama de leite
Anexo 1 - O parto – um momento sagrado desde o início da humanidade
Os momentos do nascimento e da morte sempre foram, e apesar de toda a evolução das tecnologias e cuidados de saúde, continuam a ser, “momentos sagrados”.
Não é de espantar, que os vários povos e civilizações tenham identificado deuses protetores para estes momentos.
O nascimento, em particular, assumia uma relevância transcendental como ato gerador e renovador, favorável à continuidade e sobrevivência da tribo. É fácil encontrar informação sobre a imensidão de deuses protetores que sempre acompanharam o Homem ao longo das épocas e por todos os espaços geográficos. Esta página na internet é um exemplo.

Placa votiva de uma mulher no momento do parto - Museu do Cairo
Agradecimento à deusa Hathor - Ajudada por duas mulheres com a cabeça da deusa Hathor
Como mero exemplo, nesta placa, surge a deusa Hathor a proteger a mulher no ato final da criação de um novo ser. Hathor era talvez a deusa mais relevante do panteão egípcio, sendo associada ao amor, à beleza, à música e à fertilidade.
Um outro exemplo do respeito desde sempre atribuído a estes momenstos, é o seguinte texto, recolhido de Erica Ferreira [1], com uma tradução simples para português, data do Império Médio Assírio (1363AC – 912AC), pelo que terá cerca de 3000 anos, talvez mais, Relata de forma impressionante a luta da mulher no momento do parto, numa época em que o homem e a ciência pouco ajudavam enquanto os deuses e a sua intervenção tudo podiam.
A mãe que dá à luz está rodeada pelas poeiras da morte,
Como um carro de combate, está rodeada pelas poeiras da batalha,
Como um arado, está rodeada pelas poeiras da floresta,
Como um guerreiro em batalha, ela luta com o seu sangue.
Enfraquecida, os seus olhos não veem, os seus lábios estão cobertos
Ela não abre o destino da morte e o destino do silêncio, os seus olhos (…)
Se o leitor aceder ao mesmo documento poderá encontrar outras descrições de épocas remotas, nos primórdios da escrita, relacionados com a gravidez, o parto e o nascimento.
A cristianização – Santos protetores e as invocações de Nossa Senhora
Como seria de esperar, quando um espaço era invadido e tipicamente ocupado por outro povo, com ele trazia novos ritos e novos deuses. Por vezes os novos deuses não substituíam completamente os “deuses antigos”. Algumas práticas mantinham-se e incorporavam as novas,
Com a cristianização sucedeu o mesmo. As “divindades pagãs” passaram por um processo de substituição, mas sobretudo ao nível do culto oficial. A nível popular mantêm-se frequentemente ritos e práticas que remontam a essa outra natureza. Mas isso são contas de outro rosário…
Diversos santos cristãos passaram a ser invocados como protetores do parto, tipicamente por se associar um evento na sua vida em que se acreditava que algo de positivo tinha ocorrido devido à sua proximidade ou intervenção.
Como esta publicação se foca no século XVIII; procurei averiguar se haveria publicações portuguesas dessa época ou anteriores, em que se referissem “advogados dos partos”. Consultei a Porbase (https://porbase.bnportugal.gov.pt/) e encontrei referências a São Gens - S. Genz, 1o Bispo, e Martir em Lisboa, Nossa Senhora das Dores e Resgate, Beato Simão de Roxas, São Bernardo, Santo Inácio de Loiola.
A “Nossa Senhora” em particular, foram associadas várias invocações dando resposta à proteção no momento do parto. Acabei de referir Nossa Senhora das Dores e Resgate. Mas temos atributos bem mais específicos como por exemplo “Nossa Senhora do Bom Parto” e “Nossa Senhora da Boa Hora”, por vezes nomeada simplificadamente como “Senhora da Hora”. Note-se que a invocação “da Boa Hora” não protegia apenas o crente no momento do parto. Também podia ser invocada noutros momentos, como a morte. Claro que outras invocações de Nossa Senhora poderiam ser feitas... tal depende apenas da fé do suplicante. Contudo destacaríamos como exemplos das mais invocadas Nossa Senhora do Bom Despacho, Nossa Senhora do Bom Sucesso e Nossa Senhora do Alívio.
Referências
[1] Couto-Ferreira, M. Erica - She will give birth easily: therapeutic approaches to childbirth in 1st millennium BCE cuneiform sources
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