Curiosidades sobre os registos paroquiais de Caria

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Texto publicado na edição nº 48 - 29/2/2024 do Correio de Caria

Sendo eu curioso pela história da minha terra e estando a colaborar num levantamento sobre os nossos livros paroquiais, achei interessante publicar alguns artigos (a primeira publicação feita no "Correio de Caria" e depois neste blog), partilhando curiosidades sobre o levantamento feito.

Julguei que seria também adequado fazer neste primeiro artigo uma breve contextualização histórica dos registos paroquiais.

Na verdade, se bem que o cristianismo tenha quase dois milénios de existência, há “apenas” cerca de 5 séculos que foram adotadas regras obrigando ao registo dos ritos mais relevantes, como sejam os batismos, casamentos e óbitos.

Apenas como exemplo, quando o reino de Portugal foi formado e nos séculos imediatamente seguintes, a forma como esses ritos eram executados não obedecia a normas iguais nas diversas dioceses, as quais tinham alguma autonomia. Os paroquianos eram batizados, casados, recebiam a extrema-unção e eram enterrados, mas de uma forma geral nada ficava escrito sobre isso. As comunidades partilhavam esse conhecimento porque os testemunhavam, nessas épocas de enorme fé, em que era comum haver mais do que uma missa por dia e todos faziam os possíveis por nelas participarem.

Mas à medida que surgiam novas perceções sociais e realidades de mobilidade de gentes, entre localidades distantes, países ou mesmo continentes, essa situação mostrou-se insustentável. Como atestar que um recém-chegado era batizado ou não era casado? Ou por exemplo como se avaliava com alguma objetividade as práticas de fé dos paroquianos, caso se suspeitasse que um cristão-novo continuasse a seguir a fé de Moisés? Esses registos não sendo suficientes eram cruciais para sustentar argumentos.

A Constituição Diocesana de Lisboa terá sido a primeira em Portugal a estabelecer regras de registo e tal sucedeu apenas em 1536, passando a fazer registos de batismo. No ano de 1563, no Concílio de Trento, surgiram finalmente disposições gerais sobre os atos a registar e a respetiva forma. A progressiva divulgação do uso do papel, beneficiando da adoção da imprensa, reduziu em muito o seu custo e naturalmente tornou mais acessível o seu uso.

Esta decisão do Concílio levou algum tempo a fazer o seu caminho. Em Lisboa, por exemplo, na paróquia da Sé, começou a haver registos nesse ano de 1563. Curiosamente na Sé do Porto iniciaram-se antes, em 1540. Em Belmonte os primeiros registos são de 1567. Em Caria, datam de 1594. Terá sido uma evolução normal, de adoção mais tardia em localidades que estariam mais remotas, relativamente às sedes de bispado.

Após 1911, com a República ocorreram várias alterações à legislação sobre a forma de guarda e arquivo destes livros (veja-se o sítio https://tombo.pt/ na sua página “Genealogia \ Livros paroquiais”) que não irei aqui referir para não tornar este texto demasiado longo. Importa sobretudo dizer que atualmente os livros paroquiais mais antigos se encontram na sua generalidade nos Arquivos Distritais e na Torre do Tombo e está a ser feito um processo de digitalização e publicação que permite a sua consulta a qualquer pessoa pela internete, por exemplo acedendo ao endereço atrás referido.

No caso de Caria estão já digitalizados todos os livros desde que há registo, desde 1594, até 1911, assim discriminados:

60 livros de batismo – de 1702 até 1911

53 livros de casamentos – de 1771 até 1911

53 livros de óbitos – de 1771 até 1911

7 livros mistos, agregando batismos casamentos e óbitos – de 1594 até 1771

Note-se que se constatam algumas falhas, mas em períodos relativamente curtos. Apenas como exemplo, os registos de nascimentos de 1669 / 1670 estão em páginas quase completamente rasgadas.

Tendo toda esta informação acessível, organizámos uma equipa de voluntários que tem estado a criar índices para facilitar a consulta, pois de uma forma geral não é fácil a leitura a quem não esteja habituado, além de que a quantidade de páginas e registos é enorme. Para memória futura, aqui ficam os nomes que têm colaborado nesta recolha, por ordem alfabética: Adosinda Pereirinha, Angélica Maximino, Graça Ribeiro, José Pinto, Lourenço Moura, Prazeres Roque e Vanda Querido.

Pretendemos que este levantamento fique acessível para ser consultado por qualquer pessoa numa página da internete.

Neste momento esta equipa já recolheu cerca de 11200 registos de batizados e de 3200 casamentos.

 

Se quiser selecionar a publicação seguinte sobre os registos paroquiais de Caria pressione aqui.

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